domingo, 28 de agosto de 2016

"Se dependêssemos da grande imprensa estaríamos fritos", critica José Trajano sobre o sistema de cobertura abordado por veículos de comunicação


É manhã de sol forte com os termômetros registrando, aproximadamente, 32 graus, em São Paulo. Embora final de semana, o movimento não é dos mais tranquilos. Sigo, então, para a Praça Charles Muller, onde está localizado o Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho, o charmoso Pacaembú.

Chego lá, e procuro me informar sobre o Simpósio “Balanço nos Jogos Olímpicos do Brasil: Pesquisas e Debates”, do qual me inscrevi, antecipadamente. Tudo conforme o planejado, recebo o material e, assim como os demais participantes, sou orientado a aguardar.

Enquanto espero, ali do lado de fora, avisto um senhor de cabelos (bem poucos) grisalhos, vestindo calça jeans, camiseta e tênis. Quem? José Trajano, o conhecido e polêmico comentarista dos canais Espn, que também comandou, por muito tempo, o “Cartão Verde”, programa exibido pela TV Cultura.

Pela primeira vez, vendo-o pessoalmente, dirijo-me até o dono de voz forte e de personalidade semelhante, e me apresento como jornalista. Atencioso, o carioca e torcedor do América (RJ) pergunta se vou participar do simpósio dele, até porque, havia um outro evento programado para o mesmo horário.

Digo que sim, e reforço que acompanho o trabalho dele. “Muito obrigado”, diz o quase setentão. Para não perder a oportunidade, faço uma foto com o profissional, que conhecia apenas por meio das telas de TV.

Quero mesmo é fazer uma entrevista, mas sei que não dá tempo. Logo, vem o produtor do simpósio e convida Trajano e o público para o início da apresentação.
No aconchegante auditório do Museu do Futebol, situado debaixo das arquibancadas do Pacaembú, também estão os jornalistas Conrado Corsalette, do portal Nexo, e Natalia Viana, da Agência Pública.

O assunto em pauta, “Jornalismo Investigativo em tempos de Megaeventos”, principalmente, com abordagens aos Jogos Olímpicos realizados no Brasil, semanas atrás. 

Na plateia, jornalistas e estudantes. O mediador anuncia e Trajano já chega cutucando. Para ele, se os jornalistas que atuam na grande imprensa tivessem concorrido à medalha de ouro nas Olimpíadas do Brasil, nenhum deles teria conseguido o lugar mais alto do pódio por uma série de fatores que vai contra aos princípios da profissão. 

Um deles envolve a forma com que os grandes veículos mostraram os Jogos Olímpicos, deixando de abordar fatos relevantes de interesse público como filas, desocupação de moradores de áreas desapropriadas, venda ilegal de ingressos, entre outras situações. 

Contudo, o veterano enaltece jornalistas que atuaram de forma séria veiculando informações importantes em mídias alternativas. 

“Eu quero saudar o pessoal da Agência Pública [agência que aposta num modelo de jornalismo sem fins lucrativos para manter a independência, com a missão de produzir reportagens de fôlego pautadas pelo interesse público] sobre as grandes questões do país do ponto de vista da população. Porque nem tudo esta perdido nesse país. Se dependêssemos da imprensa oficial, da grande imprensa, estaríamos fritos. É um jornalismo muito chapa branca”, apontou.  

Sem receio de dizer o que pensa, inclusive citando até mesmo a emissora onde trabalha atualmente, Trajano esbraveja que o atual jornalismo esportivo é uma tragédia, devido aos programas serem padronizados.

“Ligue a televisão na hora do almoço? Você vai ver, mas não sabe se está vendo a Sportv, Espn, Esporte Interativo ou  Fox. É um bando de homens falando sobre futebol com entradas de repórteres, ao vivo, via internet. Aqueles programas 'Histórias do Esporte', 'Loucos por Futebol', 'Brasil da Copa do Brasil', com matérias investigativas, indo mais a fundo, estão desaparecendo porque esse tipo de matéria incomoda e não é qualquer chefia ou órgão de imprensa que sustenta. Nós temos que fazer um jornalismo verdadeiro”, encerra a participação sob aplausos. 

Clique aqui e confira o áudio

Foto: Marcelo Gregório

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