quarta-feira, 29 de junho de 2016

Por que não contratar à primeira vista?

Era manhã de um dia que, agora, não consigo me lembrar. Tempo em que ainda ocupava os microfones da rádio Piratininga de São João da Boa Vista (SP), na apresentação, produção e sonoplastia do programa “Bom Dia Cidade”, exibido diariamente pelos 970 khz. Naquela ocasião, atendendo a pedidos, anunciei aos ouvintes a execução da música “É o Amor”, considerada a principal obra de autoria de Zezé di Camargo -- gravada com o irmão Luciano --, sendo responsável por alavancar a dupla sertaneja.

No entanto, a música não seria interpretada pelos dois filhos de Francisco. Mas sim, pela consagrada cantora Maria Bethânia. A canção, regravada pela baiana, fez parte da trilha sonora da novela “Suave Veneno”, exibida pela TV Globo, em 1999.

Assim que acabou a execução, uma ouvinte ligou para a emissora e me disse que a música era “muito bonita”. Contudo, ela não sabia que a letra havia sido composta por Zezé di Camargo.  

Ao saber, o discurso doce virou salgado. O questionamento, em tom de ceticismo, se voltou ao fato de como o sertanejo conseguiria compor uma canção para ser regravada pela irmã de Caetano Veloso, um dos ícones da MPB.

Querendo ou não, foi para o estúdio. 

Por meio daquele telefonema, deu para perceber que o preconceito diante de estilos musicais considerados populares como o sertanejo, pagode e axé, é enorme. Na visão da ouvinte, a música era maravilhosa até o ponto de “descobrir” o nome do compositor.

Escrevo este texto apenas para abordar a questão do preconceito musical. Eu, por exemplo, faço parte do grupo Toca do PAGODE, formado em São João da Boa Vista, há 20 anos. Nos shows, eu e os demais músicos interpretamos tanto artistas jovens do momento quanto gigantes da música como Nelson Cavaquinho, Adoniran Barbosa, Cartola, Beth Carvalho, Jorge Aragão.

O problema está na hora de vender apresentações para contratantes que nunca nos ouviram ou assistiram. Logo que divulgamos o nome Toca do Pagode, o questionamento é quase sempre o mesmo: “ mas tocam só pagode? E o samba de ‘qualidade’, vocês tocam”?

Respondemos que sim, é claro. Contudo, eles ficam meio desconfiados e acabam nos contratando. Após os shows, eles logo vêm querendo agendar outra data porque aprovaram a apresentação e não se importaram com o nome.

Infelizmente é assim que acontece. Se o nome é bonitinho, o contrato é assinado na hora. Se é meio esquisitinho, aí é preciso muito argumento para não ser deixado de lado.

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